Silêncios da noite
- Estás acordada?
O silêncio é interrompido com palavras de coragem de quem tenta vencer o sono.
- Sim, diz.
A madrugada era reveladora de muitos pensamentos.
- Faz tempo que estamos juntos. Conheço todo o teu bom e mau feitio. De olhos fechados conheço todas as tuas rotinas e sei de cor todos os teus gostos.
Ela volta-se para poder ouvir melhor.
Fico em silêncio a ver todo aquele ar ensonado.
- Continua.
Não sabia se era o momento ideal, era mais um devaneio que me assolava no silêncio da noite.
- Acho que nunca me expressei como mereces. Nunca disse o quanto me orgulho por te ter ao meu lado.
A luz do candeeiro acende-se.
Os olhos arregalam-se.
- Estás bem?
Compreendi o porquê da pergunta. Quem se lembra de fazer declarações a meio da noite?
Estava feliz por o ter conseguido dizer sem medo de parecer ridículo.
- Sim, estou bem. Sinto-me bem e feliz por dormir contigo todas as noites. Sou feliz quando me abraças, quando resmungas comigo logo pela manhã. Não sou feliz quando me mandas às compras, despejar o lixo ou levar o cão à rua. Mas mesmo com esses pequenos momentos que não consigo gostar, abro aquela porta com a ansiedade de te ver. Sinto-me feliz contigo.
Beijou-me.
- Sou muito feliz ao teu lado e quero que saibas disso também.
Ficamos os dois em estado adolescente no abraço felpudo dos pijamas.
- Agora sim, já podes dormir.
A luz do candeeiro apaga-se.
O silêncio volta a ser interrompido.
- Amor, agora que sabes o que não me faz feliz, amanhã podes ser tu a levar o cão à rua?
- NÃO.
- Também te amo, dorme bem.

Foto de: Burst