Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Diário do "bipolar"

"Diário do amor, em parcelas escritas de lágrimas, silêncios e ânsias. O tempo igual ao de todos, pincelado de saudade e esperança. A luz que surge no caminho. Viver. Cair e levantar. Em cada dia."

Diário do "bipolar"

"Diário do amor, em parcelas escritas de lágrimas, silêncios e ânsias. O tempo igual ao de todos, pincelado de saudade e esperança. A luz que surge no caminho. Viver. Cair e levantar. Em cada dia."

Porque demoraste tanto?

Abro a porta, a casa está escura. Algo estranho se passa.

Puxo os estores para cima, faz-me confusão aquela escuridão. Há um silêncio que incomoda.

Vou direto ao guarda-fatos, senti que lá devia de ir.

Vazio. A tua roupa desapareceu.

A promessa foi cumprida, foste embora. Sento-me na cama e tento ligar para conversar contigo. Falou a menina da operadora. Desligado.

Mantive-me em silêncio digerindo a situação. Fui caminhando pela casa a olhar as nossas fotos penduradas na parede, recordando todos aqueles momentos de felicidade que vivemos juntos.

Engulo em seco.

Deparo-me com um envelope branco estrategicamente posicionado para ser visto. Tremi ao abrir. São tão poucas as palavras e tão fortes.

“Amo-te, acredita que te amo muito mas amar basta.”

Fazia tempo que as conversas eram substituídas por mal entendidos. Estávamos tão perto e tão longe um do outro. Uma distância difícil de diminuir.

Horários laborais não compatíveis, uma tensão gigantesca na gestão financeira, momentos que abdicamos para não gastar o que nos poderia fazer falta. O sonho de um filho nunca realizado com medo de não o conseguirmos sustentar.

Vivíamos a sobreviver.

Ficámos com o nosso amor num passado sempre na esperança que um dia o iriamos viver novamente quando tudo se compusesse. Passaram dias, meses, anos, o desgaste foi sentido. Não me recordava do último momento apaixonado que tivera contigo.

Sentia-me culpado.

Tu que lutavas comigo todos os dias e não te compensava por isso. Vesti o casaco, entrei no carro e procurei-te. Não fazia ideia para onde ir. Procurei os sítios que tinham significado para ti e ao terceiro lá vi o teu carro na porta.

Estava carregado de adrenalina, não sabia o que esperar.

Vejo-te ao longe sentada no jardim com os patos em teu redor, pareces não estar atenta ao que te rodeia. Falta um metro para chegar até ti e ouço o teu choro. Arrepio-me.

Tapo o sol com o meu vulto e olhas para mim.

- O que fazes aqui?

- Dou muitos erros ortográficos a escrever e prefiro responder à carta pessoalmente.

Solta-se uma gargalhada inesperada.

- Também te amo, acredita que te amo muito. Sem ti não conseguiria chegar até aqui, foste sempre o meu pilar, a minha motivação, além de minha mulher és a minha melhor amiga. Sou-te muito grato por isso.

Quero muito continuar a acreditar contigo, quero ser teu marido, quero ser pai mas sobretudo quero que me ensines a crescer ao teu lado.

Perdoa-me por ter esquecido de te amar como merecias.

O olhar é intenso e cristalino.

Num abraço que há muito não era sentido e falou com ele:

- Porque demoraste tanto?

 

argument-bench-breakup-984949.jpg

 Foto de: Vera Arsic