Porque demoraste tanto?
Abro a porta, a casa está escura. Algo estranho se passa.
Puxo os estores para cima, faz-me confusão aquela escuridão. Há um silêncio que incomoda.
Vou direto ao guarda-fatos, senti que lá devia de ir.
Vazio. A tua roupa desapareceu.
A promessa foi cumprida, foste embora. Sento-me na cama e tento ligar para conversar contigo. Falou a menina da operadora. Desligado.
Mantive-me em silêncio digerindo a situação. Fui caminhando pela casa a olhar as nossas fotos penduradas na parede, recordando todos aqueles momentos de felicidade que vivemos juntos.
Engulo em seco.
Deparo-me com um envelope branco estrategicamente posicionado para ser visto. Tremi ao abrir. São tão poucas as palavras e tão fortes.
“Amo-te, acredita que te amo muito mas amar basta.”
Fazia tempo que as conversas eram substituídas por mal entendidos. Estávamos tão perto e tão longe um do outro. Uma distância difícil de diminuir.
Horários laborais não compatíveis, uma tensão gigantesca na gestão financeira, momentos que abdicamos para não gastar o que nos poderia fazer falta. O sonho de um filho nunca realizado com medo de não o conseguirmos sustentar.
Vivíamos a sobreviver.
Ficámos com o nosso amor num passado sempre na esperança que um dia o iriamos viver novamente quando tudo se compusesse. Passaram dias, meses, anos, o desgaste foi sentido. Não me recordava do último momento apaixonado que tivera contigo.
Sentia-me culpado.
Tu que lutavas comigo todos os dias e não te compensava por isso. Vesti o casaco, entrei no carro e procurei-te. Não fazia ideia para onde ir. Procurei os sítios que tinham significado para ti e ao terceiro lá vi o teu carro na porta.
Estava carregado de adrenalina, não sabia o que esperar.
Vejo-te ao longe sentada no jardim com os patos em teu redor, pareces não estar atenta ao que te rodeia. Falta um metro para chegar até ti e ouço o teu choro. Arrepio-me.
Tapo o sol com o meu vulto e olhas para mim.
- O que fazes aqui?
- Dou muitos erros ortográficos a escrever e prefiro responder à carta pessoalmente.
Solta-se uma gargalhada inesperada.
- Também te amo, acredita que te amo muito. Sem ti não conseguiria chegar até aqui, foste sempre o meu pilar, a minha motivação, além de minha mulher és a minha melhor amiga. Sou-te muito grato por isso.
Quero muito continuar a acreditar contigo, quero ser teu marido, quero ser pai mas sobretudo quero que me ensines a crescer ao teu lado.
Perdoa-me por ter esquecido de te amar como merecias.
O olhar é intenso e cristalino.
Num abraço que há muito não era sentido e falou com ele:
- Porque demoraste tanto?

Foto de: Vera Arsic