O último suspiro
Talvez seja o último ar que respiro. Olho tudo em volta como tentando levar o máximo de recordações comigo.
Tenho medo de fechar os olhos.
As memórias das minhas vivências passam lentamente pela minha mente. Nunca imaginei que conseguisse construir a minha própria família.
Neste desespero sinto-me feliz e grato.
Deixo nas mãos dos meus filhos o meu legado.
Estão todos em volta da minha cama. Vejo-os a custo.
O pânico é refletido, fico sereno para não os preocupar.
A minha neta sorri para mim. Não conseguirei cumprir a promessa de a ver crescer.
Maldito cancro que me arruinou os sonhos.
Abraçam-me como se fosse a última vez que o fizessem. Custa-lhes virar-me as costas.
Sinto-os impotentes, eu também me sinto.
Custa-me respirar.
Sinto a mão humedecida da mulher que partilhou uma vida comigo, não me consegue largar.
Fui sortudo. Ainda cá está.
Os dedos percorrem o meu cabelo. Tranquiliza-me.
A porta fecha e fico com o meu passado.
Fui feliz.
A lágrima escorre lentamente com o sabor da saudade.
Suspiro uma última vez.
Até já.
(Em memória a ti: Pai)
