Espuma de medos
Estou no meu duche quentinho a enxaguar a cabeça do champô e por alguma reacção química o meu subconsciente despertou.
Num ápice voltaram à minha memória todos os defeitos que me apontaste antes de partires, passaram todos à velocidade da luz.
Baixei os braços e deixei cair a água sobe a minha cabeça, percorrendo a minha face, fiquei a meditar com aquelas palavras na minha mente alguns segundos, como uma cascata humana.
Com o olhar nos meu pés completamente desfocado comecei a acenar com a cabeça.
Sim, tens razão, eu fui um parvalhão.
Não fui parvalhão por o ser, tinha medo de te amar muito e que subitamente abdicasses de mim e que esquecesses o que era, o que éramos, o que fomos, o que poderíamos ser. Era difícil para mim dizer o quanto gostava de ti, sentia-me exposto, vulnerável, senti que fui perdendo toda a credibilidade, toda a expectativa que depositaste perdeu-se.
Por mais que me tentasse libertar, soltar a arte de amar, soltar os meus sentimentos puros, como realmente o merecias, não!
Não conseguia!
Sentia que não estávamos de mãos dadas, senti que não estávamos a ser pacientes, precipitamos futuros quando ainda estávamos dominados por traumas de passados, esses sim os grandes culpados. Não soubemos lidar com os nossos medos e afastamo-nos.
Ficámos para segundo plano, não nos soubemos amar, não soubemos ser amados.
Ganhámos uma posição de falhados na corrida do amor, era esse o nosso sentimento, começou a ser demasiado penoso.
Podias só começar por me perguntar: “O que te origina o silêncio?”
Rapidamente te iria responder: “O medo de não te saber amar.”
A água começou a ficar fria, as memórias voltaram para o seu lugar.
Sim, tens razão, fui um parvalhão. Aprendi e não o volto a ser mais.
Maldito champô, tenho que o trocar.

Foto de: Sara S.