Enquanto a cidade dorme
Chove.
Fumo o cigarro num peitoril húmido.
A cidade dorme. Observo-a.
Não sei o que faço aqui, não lhe pertenço. Fiquei aqui por amor, por ti.
Procuro uma alma pela janela, não encontro. Está tudo tão vazio e escuro como eu.
A garrafa volta a encher o copo de vinho. Estou sem rumo, sem saber o que fazer. A lareira acompanha-me, o caderno sempre próximo de mim, converso sozinho. Deixei tudo para trás, lutei por um sonho.
Um sonho que deixou de existir, tu.
Estou impaciente, sinto-me confuso, nunca previ isto. Ainda te amo mas nego.
Escrevo-te, apago, volto a escrever. Sinto que perdi o meu discernimento. Questiono-me vezes sem conta que rumo irei de dar à minha vida.
Tenho muitas saudades tuas, sei que também as tens. Também sofres no teu silêncio. Não o falas.
Choro.
Fica impossível de controlar o sentimento e enquanto isso a cidade olha-me em silêncio.
Tenho que descansar e não consigo, o corpo pede mas a mente não consegue parar. Não sei o que o futuro nos reserva mas é garantido que o passado foi fantástico.
Amei-te, fui amado.
Deito-me na cama que era partilhada por ti.
Está vazia.
Sinto a tua falta.
O dia vai nascer não tarda nada. Vou descansar nesta cidade a que não pertenço mas que me acolhe e já começa a ser parte de mim.

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