Choque térmico sentimental
Nesta noite fria a única coisa que me consegue aquecer é o lume da lareira.
A frieza impera.
Ouço-te a chorar no quarto.
De olhos arregalados coloco mais um bocado de madeira a arder.
Não consigo ir ter contigo, sinto que te falhei, que me falhaste, que falhámos.
Perguntaste-me há uns minutos se era isto mesmo que queria, o fim.
Afirmei de uma forma convicta que sim.
Tenho as minhas incertezas.
Só queria que tudo fosse diferente.
Queria-te ao pé de mim, não queria mais sentir a rejeição.
Lutei por ti, abdiquei de tudo e encontro-me em frente a uma parede vazia onde ainda ontem restavam as nossas fotos emolduradas.
Talvez tivesse escolhido o caminho errado para esta rua com fim. Não supus.
Tinha um trajecto a percorrer contigo, não sei onde te larguei a mão ou se terás sido tu a largar a minha.
Ficámos os dois perdidos.
Ouço-te a chorar no quarto sem nada conseguir fazer.
Estou petrificado.
Tal como tu não contava estas palavras saídas da minha boca.
Queria-te abraçar mas impeço-me de te dar uma esperança. Não é orgulho, só deixei de saber o que quero.
Mas quero-te.
Castigo-me com as minhas tristezas acompanhadas por mais um copo de vinho.
Tudo o que te queria dizer não consegue sair da minha boca.
Sinto-me cansado, fraco.
Não o consegues entender. Pensei que fosse mais forte, talvez não o seja.
Tortura-me ouvir-te chorar, tu que és tanto para mim. No entanto não consigo suportar mais.
É controverso.
Olho a lareira, revivo o passado. Sou levado pela fantasia de que amanhã voltaremos a ser os mesmos.
Porque é que não te consigo falar?
Onde é que me falhaste?
Em tudo e em nada.
Há uma incoerência no meu cérebro, não lhe consigo colocar fim.
Mas sei o o que te poderia dizer. Mas não o digo.
"Amo-te".
Raios, disse-o.

Foto de: Lum3n