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Diário do "bipolar"

"Diário do amor, em parcelas escritas de lágrimas, silêncios e ânsias. O tempo igual ao de todos, pincelado de saudade e esperança. A luz que surge no caminho. Viver. Cair e levantar. Em cada dia."

Diário do "bipolar"

"Diário do amor, em parcelas escritas de lágrimas, silêncios e ânsias. O tempo igual ao de todos, pincelado de saudade e esperança. A luz que surge no caminho. Viver. Cair e levantar. Em cada dia."

Quem não erra?

São 3:55 o meu telefone toca. Atendo.

Nota-se claramente na tua voz arrastada que estás com algum álcool. É difícil perceber algumas palavras. A tua mente parece confusa.

Tentas manter um diálogo mas não consegues manter o equilíbrio na conversa. Pareces ter tanto para dizer e nada consegues.

Sei que está a ser tão doloroso para ti como para mim. Nunca nos imaginámos nesta situação. Só acontece aos outros. Hoje somos nós.

- Onde é que erramos?

Ouço-te a chorar e não sei o que te dizer. Penso nessa questão a toda a hora.

Sem arquitetar a resposta, deixei que fosse o coração a falar.

- Errámos nos momentos em que te deixava na sala e ia para o quarto dormir. Nunca me pediste para ficar, mas também não te pedi para me acompanhares.

Errámos nas conversas. Ficou muito restrito ao nosso egoísmo e esquecemo-nos de perguntar como o outro estava ou se sentia.

Errámos nos jantares especiais, há muito esquecidos. Conseguíamos ser só um do outro. Nunca te perguntei se os querias fazer novamente, também não me alertaste e sujeitámo-nos à rotina.

Errámos no dia em que deixámos de acreditar que os nossos problemas se iriam resolver. Tinhas medo, eu estava aterrorizada.

Errámos no momento em que nos sentimos sozinhos. Mesmo acompanhados. Pensávamos que nos tínhamos perdido. Só não quisemos aceitar que algumas coisas tinham mudado e nós também. A idade e as situações também nos fazem amadurecer e viver de outra forma.

Errámos quando não fizemos os nossos momentos. Somos felizes com pouco. E nesse pouco éramos felizes. Esquecemo-nos disso.  

Errámos quando tentámos ajudar quem nos rodeava sempre com uma palavra amiga a apelar ao bom-senso e não tentámos perceber o que estava acontecer connosco.

Nada fazemos para contrariar a estranha revolta.

Errámos quando não aceitamos a vida tal como ela é e, que o passado nunca mais irá voltar.

Só o existir e o sobreviver não faz sentido e errámos em reprimir sentimentos.

Errámos quando pensávamos que não havia mais amor entre nós. Mas há.

Só iremos errar verdadeiramente se nada fizermos para inverter os nossos erros.

Errámos em tantas coisas e vamos continuar a errar. Aprendemos com essas experiências e ficamos a saber mais sobre nós.

Quem não erra?

Estás a errar em não estar nesta cama e eu errei por te deixar partir. Aguardo por ti.

- Sim, agora percebo onde também estou a errar. Até já. Amo-te.

 

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Foto de: it's me neosiam

O amor encontrou-me

Sufoca-me esta ansiedade de te poder tocar novamente. Nunca pensei que fosse tão difícil viver sem ti.

Mas chegou o dia, o dia que vou poder cair nos teus braços.

Sento-me e aguardo o comboio. Sinto-me inquieto. As minhas pernas não param de baloiçar.

Transpiro. Que calor horrível.

Abro a mochila e retiro a água. Estou a desidratar.
Vejo o livro mas sinto que não tenho a concentração necessária para o ler. Abro uma página ao acaso.

<<Não te massacres na procura, o amor encontra-te.>>

A frase salientou-se no meio do texto.

Passei o dedo e senti o papel. Sorri.

Talvez fosse um sinal.

O amor tinha-me encontrado.

Rio-me sozinho. Olho em meu redor para ver se ninguém repara.

Todos os dia lá íamos e nunca nos tínhamos encontrado. Durante anos.

Sou levado no tempo e levo novamente com as folhas da tua tese na cara.
Só queria o sossego pós um dia longo de trabalho. Mas aquele dia foi diferente.

Coloco como de costume a música nos meus ouvidos e fico na minha bolha. Reparo que estavas no banco ao lado.

Eras bonita e parva. Sorrias sozinha para um telemóvel.

Tentei não valorizar. No final de contas, quem não se ri?

Olho as pessoas em meu redor. Gosto de ver a felicidade de quem passeia os filhos no parque. Gosto de ver os guerreiros que lutam por um físico perfeito. Tenho inveja deles. Gostava de ter aquela força de vontade.

Senti que não lutava por mim. Só queria o meu silêncio e o meu livro.

Só assim conseguia encontrar o refúgio para a tristeza de uma amor perdido.

Não levou muito tempo para acontecer o inesperado. Ou seria dado à desorganização que tinhas espalhada naquele banco.

Um brisa sopra vinda do nada e vens ao meu encontro.

Pedes-me desculpa de uma jeito envergonhado.

Tento manter um ar sério mas simpático. Tenho as tuas folhas na mão e os teus olhos a olhar nos meus.

Fiquei sem ar.

Desvio o olhar para as folhas. E reparo que estudas psicologia.

- Psicologia?

Respondes rapidamente. Sim, é.

- Sou vidente. É quase igual.

O olhar muda de uma forma repentina.

-  Tenho prótese dentária, estou sobe disfarce .

Não sei o que me levou a dizer um piada tão fraca. Talvez fosse do nervosismo de a ter tão perto.

A gargalhada espontânea percorreu o parque. Ouvi música. Vi as notas musicais a saltar de  árvore em árvore.

- Também procuras a tua cura?

Raios! Ela tinha percebido que era um desequilibrado.

- Tem dias. Mas já me cansei.

A conversa flui sem dar conta do tempo passar. Era noite e tu sem olhares para aqueles apontamentos. Sentia-me culpado mas querer conhecer-te era mais forte do que eu.

Aquele dia passou a dias. Sem dar conta estava a viver novamente o amor. Não estava em mim.

Os dias passaram a anos e um dia tiveste que regressar. Fomos separados por muitos quilómetros. Parecem nem existir. Os nossos corações estão ligados. Não me tocas mas sinto-te.

É isso que me faz lutar todos os dias. O teu amor.

Chegou o comboio e o meu coração está a saltar da minha boca.

Assim que tocares com um pé naquele chão sei que nunca mais irás regressar.  

Serás minha, todos os dias.  

O amor encontrou-me e eu espero-o com um flor.

 

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 Foto de: George Becker 

Um dia ganho coragem

Algo abafa a minha voz.

Deixas-me inquieto.

Gostava de te dizer o quanto me fazes falta. O quanto a tua voz me acalma.

Gostava de partilhar novamente as nossa histórias contigo.

Não consigo.

Sinto-me injusto.

Deveria confiar em ti mas algo aconteceu.

As mágoas foram escondidas por de trás de um sorriso.

Sempre pensei que era eu a causa, sempre me fizeste isso.

Moldei-me e adaptei-me para te acompanhar.

Tudo foi em vão. Sinto o a amargura de uma derrota dentro de mim.

Sempre quiseste mais, sonhei mas só te queria a ti.

Sentia-me sozinho mas era feliz por te ter a meu lado.

Perdi a minha identidade a tentar ser o teu espelho. Não foi o suficiente.

Parei.

Hoje questiono o meu “eu”.

Como fui capaz de me rebaixar? De me perder?

Amava-te. O amor deixa-nos inocentes.

Não me culpo. Mas questiono-me.

Deixei-te para trás com mágoa, com sofrimento.

Acreditava.

Tentei explicar mas não quiseste entender.

Vivo de sentimentos e momentos. Não te consegui falar ao coração.

Somos diferentes. Mesmo assim amava a nossa diferença. Senti que era isso que nos completava até certo ponto.

Queria ter voz para te dizer o quanto me fazes falta, para te dizer que penso em ti todos os dias.

Queria ter voz para te dizer que sonhava que me aceitasses. Assim, tal como sou.

Um dia ganho coragem e falo-te novamente do meu verdadeiro “eu”.

Entretanto ganho voz nestas linhas.

Lê-me.

 

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 Foto de: Kat Jayne

Porque demoraste tanto?

Abro a porta, a casa está escura. Algo estranho se passa.

Puxo os estores para cima, faz-me confusão aquela escuridão. Há um silêncio que incomoda.

Vou direto ao guarda-fatos, senti que lá devia de ir.

Vazio. A tua roupa desapareceu.

A promessa foi cumprida, foste embora. Sento-me na cama e tento ligar para conversar contigo. Falou a menina da operadora. Desligado.

Mantive-me em silêncio digerindo a situação. Fui caminhando pela casa a olhar as nossas fotos penduradas na parede, recordando todos aqueles momentos de felicidade que vivemos juntos.

Engulo em seco.

Deparo-me com um envelope branco estrategicamente posicionado para ser visto. Tremi ao abrir. São tão poucas as palavras e tão fortes.

“Amo-te, acredita que te amo muito mas amar basta.”

Fazia tempo que as conversas eram substituídas por mal entendidos. Estávamos tão perto e tão longe um do outro. Uma distância difícil de diminuir.

Horários laborais não compatíveis, uma tensão gigantesca na gestão financeira, momentos que abdicamos para não gastar o que nos poderia fazer falta. O sonho de um filho nunca realizado com medo de não o conseguirmos sustentar.

Vivíamos a sobreviver.

Ficámos com o nosso amor num passado sempre na esperança que um dia o iriamos viver novamente quando tudo se compusesse. Passaram dias, meses, anos, o desgaste foi sentido. Não me recordava do último momento apaixonado que tivera contigo.

Sentia-me culpado.

Tu que lutavas comigo todos os dias e não te compensava por isso. Vesti o casaco, entrei no carro e procurei-te. Não fazia ideia para onde ir. Procurei os sítios que tinham significado para ti e ao terceiro lá vi o teu carro na porta.

Estava carregado de adrenalina, não sabia o que esperar.

Vejo-te ao longe sentada no jardim com os patos em teu redor, pareces não estar atenta ao que te rodeia. Falta um metro para chegar até ti e ouço o teu choro. Arrepio-me.

Tapo o sol com o meu vulto e olhas para mim.

- O que fazes aqui?

- Dou muitos erros ortográficos a escrever e prefiro responder à carta pessoalmente.

Solta-se uma gargalhada inesperada.

- Também te amo, acredita que te amo muito. Sem ti não conseguiria chegar até aqui, foste sempre o meu pilar, a minha motivação, além de minha mulher és a minha melhor amiga. Sou-te muito grato por isso.

Quero muito continuar a acreditar contigo, quero ser teu marido, quero ser pai mas sobretudo quero que me ensines a crescer ao teu lado.

Perdoa-me por ter esquecido de te amar como merecias.

O olhar é intenso e cristalino.

Num abraço que há muito não era sentido e falou com ele:

- Porque demoraste tanto?

 

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 Foto de: Vera Arsic

Viver sem amor

Explica-me onde tudo terminou. Não sei se foi uma atitude ou uma palavra que nos fez desacreditar na nossa capacidade de amar.

As palavras de sentimento ficam distorcidas no eco de um coração vazio. O carinho passou a ser só mais um toque na nossa pele. As emoções desapareceram dando lugar ao silêncio, aos olhares frios, distantes.

Tentámos ser indiferentes na presença um do outro, por dentro estamos em pedaços. Sofremos a pensar nos desfechos, algo nos faz andar para trás e não lutar. Perdemos a confiança na nossa união, já não conseguimos imaginar futuros.

No final do dia ao abrir a porta o coração bate mais rápido. Paira a incerteza se um de nós estará lá dentro.

Quem vai desistir?

Quem não vai mais aguentar viver sem amor?

Acreditamos que podemos seguir com vidas independentes, mas estamos a ser comodistas e egoístas. Foram longos anos lado a lado que parecem já não valer de nada.

Ficou tudo perdido no tempo.

Encostamos o peito um ao outro na esperança que volte a aquecer estes corações frios. Respiramos fundo, mas não damos a parte fraca.

Estamos indecisos entre sentimentos e bom senso.

Não conseguimos viver um sem o outro. Mas também não conseguimos viver sem amor.

Vivemos sempre com a esperança que um de nós supere o medo. Amanhã tudo irá ser diferente.

Se houver amanhã.

 

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  Foto de: Flash Bros

A folha de papel

É em frente ao mar que encontro a tão necessitada tranquilidade. Sinto os meus problemas demasiado pequenos perante esta imensidão de areal e mar que me rodeia.
Não sei mais o que pensar ou como agir.
Neste espaço sinto-me vazia de tudo o que me atormenta.
Retiro o meu pequeno caderno da mala e sinto a necessidade de te escrever uma última carta.
Quero te dar a conhecer a falta que me fazes. Fazer-me entender que nem sempre estive errada. Éramos os dois.
Quero que percebas nesta carta que eu amei-te mesmo com os teus defeitos.

Que lutei para ser perfeita aos teus olhos.
Vou tentar explicar que não gostava de ser insultada, desvalorizada e humilhada. Parvamente aceitava, porque gostava de ti. Acreditava que um dia irias mudar e tudo iria ser diferente. Mas não.
Nada mudou. Já fazia parte de ti.
Quero-te escrever para te dizer que só queria que me amasses a mim como eu te amava a ti. Mas um dia percebi que deixei viver, por ti.
Nestas linhas quero que entendas que os teus comportamentos e atitudes não são corretos. Desejo que te apercebas a tempo e os mudes.
Por ti, por quem te vai acompanhar.
Ganho coragem.

Abro o caderno e a única coisa que consigo escrever é o teu nome. Marcaste-me muito.
Rasgo-a e amasso com a minha mão transpirada.

Fico a olhar para aquela folha branca amarrotada e arremesso-a.

Fico a ver o teu nome a ondular no mar e afastar-se para o horizonte.
Porque é aí que te quero. Afastado de mim.
Não te desejo o mal. Porque um dia eu amei-te. Só espero que amadureças.
Agora que ganhei coragem e abdiquei do meu comodismo, vou viver.
Perdoa-me por já não te conseguir escrever.
Faz uma boa viagem, nessa folha de papel.

 

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 Foto de: Pixabay